Alto fluxo de oxigênio através de cânula
nasal na insuficiência respiratória aguda hipoxêmica
A
ventilação não invasiva (VNI) com pressão positiva reduz a necessidade de intubação
endotraqueal e mortalidade entre os pacientes com exacerbações agudas de doença
pulmonar obstrutiva crônica ou edema pulmonar cardiogênico grave. Os efeitos fisiológicos da VNI incluem uma diminuição no trabalho
respiratório e melhora na troca gasosa. Estudos anteriores muitas vezes
incluíram uma população heterogênea de pacientes com insuficiência respiratória
aguda que tinham doença pulmonar obstrutiva crônica ou edema pulmonar cardiogênico. Esta seleção de pacientes pode ter levado a uma superestimação dos
efeitos benéficos da ventilação não invasiva, em comparação com a terapia
padrão com oxigênio. Em estudos observacionais com
foco em pacientes com insuficiência respiratória hipoxêmica aguda, a taxa de
falha do tratamento com VNI foi em torno de 50% e muitas vezes associada com elevada mortalidade. Até hoje, a literatura não é conclusiva quanto ao uso desta
terapêutica em pacientes com insuficiência respiratória hipoxêmica aguda não
hipercápnica.
Terapia
de oxigénio de alto fluxo através de uma cânula nasal é uma técnica pela qual o
oxigênio aquecido e umidificado é administrado ao nariz com fluxos elevados. Essas altas taxas de fluxo
geram baixos níveis de pressão positiva nas vias aéreas e a fração inspirada de
oxigênio (FIO2) pode ser ajustada mudando o fluxo de oxigênio no gás de
condução. As altas taxas de fluxo podem também diminuir
o espaço morto fisiológico por lavagem do dióxido de carbono expirado a partir
da via aérea superior, um processo que pode explicar a diminuição observada no
trabalho respiratório. Em pacientes com insuficiência respiratória aguda de várias
origens, o oxigênio de alto fluxo mostrou melhores resultados no conforto e na oxigenação
do que a terapia padrão com oxigênio fornecido através de uma máscara facial.
Pelo nosso conhecimento, o efeito de oxigênio a alto fluxo na taxa
de intubação ou mortalidade não foi avaliado em pacientes internados na unidade
de terapia intensiva (UTI) com insuficiência respiratória hipoxêmica aguda.
Diante
disto, novos sistemas de fornecimento de alto fluxo de oxigênio por cateter
nasal surgiram recentemente como opção de dispositivos não invasivos na
terapêutica da insuficiência respiratória (Optiflow®, Vapotherm®). Estes
sistemas podem proporcionar taxas de fluxo de 50 litros/minuto de oxigênio
aquecido e humidificado a concentrações de até 100%. Alguns estudos pilotos
especularam sua utilização como favorável a VNI tradicional nos casos de
insuficiência respiratória hipoxêmica. Em junho de 2015, um estudo publicado no New
England Journal of Medicine, os autores randomizaram 310 pacientes com insuficiência
respiratória hipoxêmica aguda (PaO2:FiO2<300mmHg) em 23 UTIs na França e
Bélgica, para receber ou ventilação não invasiva ou oxigênio com alto fluxo por
cânula nasal (Optiflow®) ou oxigênio por máscara facial (n~100 em cada grupo).
O desfecho primário foi a proporção de pacientes que necessitaram de intubação
dentro de 28 dias após a randomização. A principal causa da hipoxemia foi
pneumonia, em torno de 80-90% dos pacientes incluídos. A maioria tinha níveis
baixos ou normais de pCO2 no momento da inclusão (todos tinham pCO2≤45mmHg). Como
resultados no desfecho principal, menos pacientes recebendo oxigênio com alto
fluxo por cânula nasal necessitaram de ventilação mecânica em 28 dias, embora
não significativo estatisticamente. Em uma análise de subgrupo, os benefícios
do oxigênio com alto fluxo por cânula nasal parecem maiores nos pacientes mais
hipoxêmicos (PaO2:FiO2 <200mmHg) (Figura 1).
Como
desfechos secundários, no dia 90, aqueles que recebem alto fluxo de oxigênio
por cânula nasal apresentaram praticamente o dobro de chances de sobreviver
quando comparados àqueles que receberam máscara de oxigênio ou ventilação não
invasiva (Figura 2). Além disso, os pacientes do grupo com cânula nasal de
oxigênio em alto fluxo relataram maior conforto e menos dispneia quando
comparado com os outros grupos. Em resumo, os benefícios da ventilação não
invasiva foram bem demonstrados em estudos prévios para pacientes com
insuficiência respiratória hipercápnica, principalmente exacerbações da DPOC e
edema pulmonar de origem cardiogênica. Este estudo sugere que, em pacientes com
insuficiência respiratória hipoxêmica sem hipercapnia (como a pneumonia),
oxigênio com alto fluxo por cânula nasal pode ser superior, e deve ser
considerado como opção de tratamento. Que os novos estudos em andamento tragam
mais informações e desfechos sobre tais dispositivos e, que comercialmente
tornem-se mais acessíveis para uso no nosso estado.
Rodrigo A.
Arruda, Fisioterapeuta.
High-Flow Oxygen through Nasal Cannula in Acute
Hypoxemic Respiratory Failure. Jean-Pierre Frat,
M.D., Arnaud W. Thille, M.D., Ph.D., Alain Mercat, M.D., Ph.D., Christophe
Girault, M.D., Ph.D., Stéphanie Ragot, Pharm.D., Ph.D., Sébastien Perbet, M.D.,
Gwénael Prat, M.D., Thierry Boulain, M.D., Ph.D., Jean-Christophe M. Richard,
M.D., Ph.D., Laurent Brochard, M.D., and René Robert, M.D., Ph.D, N
Engl J Med 2015;372:2185-96.



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